Pinheiros nos anos 90, Vila Madalena nos 2000, Barra Funda agora. A gentrificação tem endereço, mas a resistência cultural também.
Tem uma frase que circula entre arquitetos e urbanistas paulistanos há pelo menos duas décadas: "São Paulo não tem memória." A cidade derruba, constrói, derruba de novo. Bairros que eram industriais viram residenciais, residenciais viraram comerciais, comerciais viraram "gastronômicos" — essa palavra que apareceu do nada e agora está em todo guia de viagem.
Mas a frase não é inteiramente verdade. São Paulo tem memória, só que ela não mora nos prédios. Ela mora nas pessoas que ficaram quando os prédios mudaram.
Pinheiros nos anos 90 era um bairro de classe média que ainda guardava resquícios de uma vida de bairro mais lenta — padaria de esquina, bar com mesa na calçada, o açougue onde o dono sabia o nome de todo mundo. Depois vieram as galerias de arte, os bares com cervejas artesanais, os restaurantes com cardápio em inglês. Os aluguéis subiram. Quem não conseguiu acompanhar foi embora.
Vila Madalena seguiu o mesmo roteiro, com uma diferença: lá havia uma identidade cultural mais forte, construída ao longo dos anos 80 e 90 por artistas, músicos e estudantes da USP. Quando a gentrificação chegou, encontrou resistência. Não organizada, não política — mas real. Bares que não mudaram o cardápio, ateliês que se recusaram a virar boutiques, moradores que continuaram morando.
"A gentrificação não é inevitável. Ela é uma escolha política. E quando o poder público não faz escolhas, quem faz é o mercado."
Hoje, o debate se desloca para a Barra Funda e o entorno da Luz. Bairros que durante décadas foram associados à marginalidade e ao abandono estão sendo redescobertos por incorporadoras e pela cena cultural alternativa — que, ironicamente, costuma chegar primeiro e preparar o terreno para o capital que a expulsará depois.
A pergunta que raramente aparece nos guias de bairros emergentes é: quem estava lá antes? Não os moradores de classe média que chegaram nos anos 80 e hoje reclamam que o bairro mudou, mas as pessoas que construíram a vida cotidiana desses lugares — os trabalhadores, os imigrantes, as famílias que alugavam apartamentos pequenos por valores que hoje seriam impensáveis.
Numa conversa com uma moradora do Bom Retiro que preferiu não se identificar, ela descreveu assim: "Minha mãe morou aqui 40 anos. Quando ela morreu, eu não consegui renovar o contrato. O prédio foi vendido, reformado, agora é um apart-hotel. Eu fui morar em Guarulhos."
Mas São Paulo também é a cidade que guarda. O Mercadão da Liberdade continua lá, resistindo ao turismo de Instagram. A feira da Benedito Calixto ainda tem os mesmos vendedores de discos de vinil que estavam lá quando eu era criança. O Bixiga ainda tem restaurantes italianos que não trocaram as toalhas xadrez por mesas de concreto.
A resistência não é romântica. Ela é muitas vezes cansativa, financeiramente precária, invisível para quem não sabe onde olhar. Mas ela existe. E enquanto existir, São Paulo continuará sendo uma cidade que, apesar de tudo, ainda tem algo a dizer sobre quem ela é.