Gastronomia · Cultura

O renascimento da cozinha nordestina nos grandes centros urbanos

Chefs de Recife e Fortaleza estão abrindo restaurantes em São Paulo e Rio. Mas o que acontece com a cozinha quando ela muda de endereço?

Por Carla Vasconcelos 3 de julho de 2025 9 min de leitura

Tem um restaurante no Itaim Bibi que serve carne de sol com manteiga de garrafa e macaxeira frita. A apresentação é impecável, o ambiente é minimalista, a conta chega a R$ 180 por pessoa. Na mesa ao lado, um casal de executivos fala sobre o "resgate da culinária regional". Do lado de fora, um entregador de aplicativo espera o pedido.

Essa cena resume bem a contradição do momento: a cozinha nordestina nunca esteve tão presente nos grandes centros, e nunca foi tão cara. O que era comida de trabalhador, de família, de domingo — virou experiência gastronômica. E isso levanta perguntas que não têm resposta fácil.

A geração que voltou com outra perspectiva

Muitos dos chefs que estão abrindo esses restaurantes são nordestinos que saíram para estudar gastronomia em São Paulo, Europa ou nos Estados Unidos, e voltaram com uma perspectiva diferente sobre o que tinham em casa. Não é exatamente uma descoberta — é um reencontro com o que sempre esteve ali, mas que precisou de distância para ser visto.

A chef Renata Albuquerque, pernambucana que estudou em Lyon e abriu um restaurante em Pinheiros em 2023, descreve assim: "Quando eu estava na França, os colegas me perguntavam sobre a cozinha brasileira. E eu percebi que eu sabia muito sobre técnica francesa e muito pouco sobre o que minha avó cozinhava. Voltei para aprender."

"A cozinha nordestina não precisa de validação externa para ser boa. Ela já era boa. O que mudou foi quem está disposto a pagar por ela."

O que se transforma no caminho

Mas a cozinha que chega a São Paulo não é exatamente a mesma que saiu do Nordeste. Os ingredientes mudam — o queijo coalho que vem de caminhão frigorificado não tem o mesmo sabor do que é feito na fazenda. A manteiga de garrafa industrializada é diferente da artesanal. O baião de dois servido em louça de design não tem a mesma atmosfera do que é comido na mesa da cozinha.

Isso não é necessariamente ruim. A cozinha sempre se transformou ao migrar. A pizza italiana que chegou ao Brasil no começo do século XX virou outra coisa — e hoje a pizza paulistana é reconhecida mundialmente como um estilo próprio. A cozinha nordestina que está chegando aos grandes centros também vai se transformar. A questão é se essa transformação vai preservar o essencial ou apenas a estética.

A cozinha que ficou

Enquanto os restaurantes de alto padrão ganham espaço nas revistas de gastronomia, a cozinha nordestina cotidiana continua existindo nas periferias das grandes cidades, nos restaurantes por quilo do centro, nas marmitas que os migrantes preparam para não perder o gosto de casa. Essa cozinha não aparece nos guias, não tem chef com passagem pelo exterior, não cobra R$ 180 por pessoa.

Mas é ela que sustenta a identidade. E é ela que, quando os restaurantes de Itaim Bibi fecharem para dar lugar à próxima tendência, vai continuar existindo — porque não é tendência. É necessidade.

CV

Carla Vasconcelos

Jornalista gastronômica e escritora. Nasceu em Fortaleza, mora em São Paulo há 12 anos. Escreve sobre comida, cultura e as conexões entre as duas coisas. Colabora com o LiveBR desde 2021.