Proibido aqui, celebrado lá fora. A trajetória do funk carioca diz muito sobre como tratamos a cultura periférica neste país.
Em 2022, o funk foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro. No mesmo ano, prefeituras de pelo menos seis cidades do interior paulista aprovaram leis restringindo bailes funk em espaços públicos. O Brasil é um país que consegue celebrar e proibir a mesma coisa ao mesmo tempo — e o funk é um dos melhores exemplos disso.
A história do funk no Brasil começa nos anos 70, quando o soul americano chegou às periferias cariocas e foi sendo transformado por quem o recebeu. Não foi uma influência passiva — foi uma apropriação criativa, uma reinterpretação que produziu algo novo. O baile black, o charme, o funk melody, o funk carioca, o funk ostentação, o funk 150 bpm. Cada fase é uma resposta ao momento histórico que a gerou.
Quando políticos e colunistas criticam o funk, raramente falam sobre o ritmo em si. Falam sobre as letras, sobre os bailes, sobre o comportamento dos jovens que frequentam esses eventos. Mas as mesmas críticas — letras sexualizadas, comportamento excessivo, barulho — foram feitas ao samba nos anos 30, ao rock nos anos 60, ao pagode nos anos 90. O alvo muda, o argumento é sempre o mesmo.
O que não muda é quem está sendo criticado: jovens negros e pobres, moradores de periferias, pessoas que não têm acesso aos espaços culturais "legítimos" e que criaram os seus próprios. A questão não é o funk. A questão é quem faz funk.
"Quando a classe média descobriu o funk, ele virou 'música eletrônica brasileira'. Quando a periferia fazia, era caso de polícia."